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Desde dezembro de 2019 o mundo tem sido convulsionado por uma enorme ameaça global: a pandemia da COVID-19. A pandemia tem gerado um impacto sem precedentes tanto na população geral como nos sistemas de saúde da maioria dos países. Com base na literatura científica até o momento, o impacto da pandemia tem sido significativamente maior do que nas pandemias que a antecederam em termos do número de pessoas afetadas em todo o mundo, sua disseminação entre países, seu impacto nos sistemas de saúde e na severidade das medidas que tem sido tomadas pelos governos. Várias repercussões sociais e econômicas tem sido relatadas (p.ex.: taxas de desemprego altas), enquanto outras são esperadas que ocorram nos próximos meses, aumentando as divisões sociais e as desigualdades pelo mundo. Essas repercussões também tem sido evidentes nos sistemas de saúde.

Dada a natureza global da pandemia, as comparações entre países são justificadas. No entanto, nos países de média e baixa renda pode haver uma carência de dados, justamente onde a pandemia tem seus efeitos mais devastadores. As variações e similaridades entre países e culturas podem ajudar a compreender as associações com a saúde mental dos trabalhadores da Saúde. Neste sentido, apresentamos o estudo HEROES, que se encontra em desenvolvimento, tendo um modelo de coorte prospectivo com o objetivo de avaliar o impacto da pandemia da COVID-19 na saúde mental do trabalhadores da Saúde em 28 países nos cinco continentes, usando a mesma metodologia. O estudo HEROES inclui uma ampla gama de instituições em 19 países de média e baixa renda e 9 países de alta renda, em parceria com a Organização Pan-americana da Saúde (OPAS) e com apoio da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Especificamente, procuramos (1) investigar o impacto da COVID-19 sobre sintomas de saúde mental (p.ex.: ansiedade e depressão) e transtornos mentais (p.ex.: transtorno de estresse pós-traumático) entre os trabalhadores da Saúde em cada país e entre eles; (2) examinar as associações entre dados demográficos (p.ex.: gênero), e ocupacionais (p.ex.: ser exposto a pacientes com suspeita ou confirmação de COVID-19 e disponibilidade de equipamentos de proteção individual) e desfechos sobre a saúde mental entre os trabalhadores da Saúde em diferentes fases da pandemia em cada país e entre eles; e (3) explorar o papel das medidas adotadas nos níveis locais e nacionais, com repercussões sobre as taxas de infecção, hospitalização e mortalidade na relação entre exposição à COVID-19 e a saúde mental dos trabalhadores da Saúde.

Nós estamos utilizando um modelo de pesquisa de coorte prospectivo, aberto, incluindo todas as categorias de trabalhadores da Saúde de serviços de saúde pré-selecionados nos países participantes. O estudo terá um seguimento aos 6, 12 e 24 meses, utilizando um questionário on-line, com base em medidas padronizadas e alguns itens incluídos ad-hoc.

O questionário é auto administrado e leva, aproximadamente, 15 a 20 minutos para ser preenchido. Ele inclui o General Health Questionnaire (GHQ-12), o Patient Health Questionnaire (PHQ-9), a Columbia Suicide Severity Rating Scale (C-SSRS), e o Primary Care PTSD Screen for DSM-5 (PC-PTSD-5), assim como uma série de itens sobre o local de trabalho, a família e os desafios sociais relacionados à pandemia da COVID-19.

Os participantes incluem trabalhadores clínicos e não-clínicos (administrativos, de apoio) nos diferentes tipos de serviços de saúde, desde Emergências até Unidades Básicas de Saúde. Os critérios de inclusão para potenciais participantes incluem ter 18 ou mais anos de idade, trabalhar em um dos serviços de saúde pré-selecionados, trabalhar em um serviço que preste cuidados a pacientes com suspeita ou confirmação da COVID-19 e ter acesso à internet para preencher o questionário. A maioria dos países participantes identificaram serviços de saúde onde a taxa de resposta dos participantes fosse suficiente, ou seja, entre 30 a 50% do total de trabalhadores no serviço.

As equipes locais do projeto são capazes de identificar o total de trabalhadores destes serviços e, quando possível, a distribuição deles por tipo de ocupação (p.ex.: médicos, enfermeiros, pessoal de apoio). Para facilitar a comparação entre os locais, estamos focalizando em grandes instituições (p.ex.: hospitais) e cada país incluiu, quando possível, serviços das áreas onde hajam altas taxas de casos e óbitos, assim como áreas com baixas taxas destes indicadores. Nós incluímos um item obrigatório que pergunta “qual o serviço em que você trabalha / a qual instituição você pertence”, a fim de registrar o local de trabalho dos indivíduos e calcular as taxas de resposta. Se os dados para o denominador das taxas não forem disponíveis, são calculadas taxas de cooperação (número de questionários completados / número de convites enviados).

Os potenciais desfechos incluem sintomas e transtornos mentais, assim como comportamentais (p.ex.: resiliência) e sociais (p.ex.: confiança no grupo de trabalho e no governo em relação à gestão na pandemia). O questionário on-line colhe dados sobre diversas co-variáveis, incluindo os sócio demográficos, emprego, testagem para COVID-19, treinamento para manejo da COVID-19, priorização de pacientes com COVID-19, outros sintomas mentais, apoios formais e informais, condições de saúde prévias (p.ex.: condições físicas, mentais e uso de substâncias).

A estatística descritiva dará um panorama da prevalência das variáveis de exposição e desfechos primários na linha de base e ao longo do tempo. Análises bivariadas serão conduzidas para explorar as associações entre desfechos primários e co-variáveis. Potenciais fatores de confusão, moderadores e modificadores do efeito serão identificados e examinados com base na literatura disponível e nos dados. A seguir, dois tipos de análise serão propostas para estas exposições e desfechos: internamente em cada país e entre eles. Para as exposições e desfechos nos países. Para as análises internas aos países estudaremos as associações entre as variáveis de exposição e desfecho (p.ex.: saúde mental, comportamento e condições sociais) entre áreas com baixas e altas taxas de casos e óbitos pela COVID-19. Adicionalmente, iremos examinar as mudanças nos desfechos primários ao longo do tempo, com as variações dos indicadores da pandemia entre as suas fases. Para as análises entre países, utilizaremos uma abordagem semelhante à acima descrita, mas adicionando um outro nível ao nosso modelo multi-nível. Sobretudo, esperamos usar os dados de cada país, que tem sido bem documentados na maioria deles, com fatores do contexto, tais como quando o país declarou a emergência nacional devido à COVID-19, as medidas de restrição emitidas pelos governos e outras entidades para controlar a disseminação do vírus e o desenvolvimento econômico do país (p.ex.: países de baixa, média ou alta renda).